As palavras que deram vida ao rio Tietê

No mês em que comemoramos o aniversário do nosso Tietê, vamos conhecer outro artista que, brincando com as palavras, contou como ninguém essa linda história que nos leva a perceber o Rio por outro aspecto. Um livro em que as artes se encontram e percorrem as páginas dando vazão a natureza próxima e, muitas vezes, ignorada por nós.

Jornalista e escritor, Thiago Medaglia tem seu currículo, de certa forma, pautado na natureza. Fundador e editor da Ambiental, colabora com o InfoAmazonia. Já foi repórter e editor nas revistas Os Caminhos da TERRA e National Geographic Brasil, onde ainda é freelancer, além de diretor-editorial na Editora Horizonte. Bolsista do Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ, 2015), e pós-graduado em Jornalismo Empreendedor pela City University de Nova York (Cuny, 2016). Diante desse breve histórico, fica um pouco mais claro compreender a paixão em sua escrita quando fala do Tietê.

O que fazer agora, se não apreciar esse bate papo com o jornalista Thiago e saber um pouco mais sobre todo esse processo que foi escrever o livro Tietê- Um rio de várias faces?

GS: Nasceu em qual cidade e mora onde hoje em dia?

Thiago: Nascido em São José dos Campos, SP. Morei 15 anos em São Paulo e um ano entre o Canadá e os EUA. Agora fico entre São José dos Campos e São Paulo.

GS: Quando começou o seu interesse pelo rio Tietê?

Thiago: Tive a sorte e o privilégio de ter sido incumbido de uma reportagem sobre o rio Tietê em 2005, quando era repórter da revista Os Caminhos da TERRA. Passamos, eu e o fotógrafo Valdemir Cunha, quase dez dias viajando de carro pelo interior de SP acompanhando o rio. Mais tarde, publiquei o livro e escrevi outra reportagem sobre o rio, dessa vez, para a revista National Geographic Brasil. Também publiquei uma crônica para a revista da Folha de S. Paulo sobre o Tietê e a relação das pessoas em São Paulo com o rio.

GS: O que mais o encanta, como jornalista, na história do rio?

Thiago: A capacidade de reinvenção do Tietê é a prova de sua força. Ele nasce puro, morre na região metropolitana de São Paulo, e renasce na medida em que se aproxima da foz. Ainda que incrivelmente transformado, o Tietê segue capaz de prover em abundância. Isso é fantástico.

GS: Como nasceu a ideia do livro? O projeto já existia e você foi convidado?

Thiago: Ficamos encantados com o rio e suas histórias ao longo da reportagem. Desde essa experiência, pensava na possibilidade de um livro, mas os interesses convergiram e fomos convidados. Dá para dizer que o livro nasce de um interesse mútuo.

GS: Por que o interesse em falar sobre o Tietê? Por que fazer parte desse projeto? Apenas curiosidade ou alguma ligação com a história desse rio?

Thiago: Como jornalista e escritor, tenho interesse em boas histórias. O enredo do Tietê é, sem dúvida, uma grande história: um rio histórico, importante para as populações tradicionais e para os colonizadores, que o utilizaram como baliza rumo ao interior; às suas margens, nasceu a maior metrópole do hemisfério sul do planeta; vítima de uma carga de poluentes só comparáveis à de outros rios em regiões intensamente urbanizadas. O Tietê foi protagonista do nascimento da consciência ambiental do paulista - e até do brasileiro; gosto também da geografia particular: ele corta o estado de São Paulo ao meio e o percorre de leste a oeste; finalmente, o Tietê é um espelho fiel da relação da metrópole com a cidade e com a natureza: São Paulo só será uma cidade-modelo quando seu rio estiver limpo.

GS: Já conhecia a história do Tietê por esse ângulo ou foi descobrindo à medida em que o projeto ia acontecendo?

Thiago: A reportagem, assim como muitas outras, foi uma imensa descoberta. Tinha uma noção da geografia e da história do rio, mas não há como comparar as páginas de livros e revistas com a experiência de dedicar um tempo para seguir a trajetória do leito de um rio, acompanhar as mudanças na cor da água, na paisagem do entorno, no cheiro, nas histórias e personagens. Esse é o grande barato do jornalismo.  

GS: Como é escrever sobre um rio que, para muitos paulistanos, pode ser apenas um rio poluído, mas que respira vida ao longo do seu trajeto?

Thiago: É desafiar o pensamento vigente, o que é outro dos grandes benefícios de fazer jornalismo. E é gratificante por se tratar de um assunto que gera empatia. O livro foi feito há muitos anos e ainda hoje me rende entrevistas como esta, além de comentários de leitores bastante entusiasmados com as descobertas que o livro proporciona. Quero dizer, as pessoas gostam de rios, embora às vezes não saibam disso.

GS: Alguma história que o impressionou?

Thiago: Na porção média do Tietê, tive uma conversa muito especial com um pescador, que me mostrou uma foto e disse: "Essa foto, moço, é do tempo em que eu era gente". Ele me contou das dificuldades e desilusões que passou na vida e de como o rio, persistente e forte, o encorajava a seguir adiante. Naquele momento, tive a sensação de que o rio era tudo na vida daquele homem, era o que o mantinha de pé, fosse pelo peixe que provinha o sustento, fosse pelo ânimo que o rio emprestava à sua alma. Levei comigo essa sensação e nunca vou me esquecer dela. Às margens de outros rios Brasil afora, da Amazônia ao São Francisco, revisitei essa sensação manifestada em outros pescadores - claro que com particularidades.

GS: O que foi mais difícil de contar?

Thiago: O descaso das autoridades. É uma vergonha que o Tietê ainda esteja no estado atual, embora melhorias significativas tenham acontecido nos últimos anos, como o recuo da mancha de poluição. O descaso das pessoas, em geral, também foi difícil: o rio é usado como lixo, sem dó nem vergonha na cara.

GS: O que representou para você como cidadão e como jornalista esse projeto?

Thiago: Foi um marco na minha carreira. Foi a primeira grande reportagem que fiz. Uma grande escola em todos os sentidos. O Tietê me fez.

GS: O que leva com você após esse período?

Thiago: Eu também fui capaz de renascer em vida, assim como o rio. Enfrentei muitos desafios na vida e descobri minha força. O Tietê me ensinou.

GS: O Tietê está em seus planos futuros como jornalista?

Thiago: Sempre.

Um fotógrafo, um jornalista falando sobre a mesma história e com percepções, hora semelhantes, hora possuidoras de uma particularidade própria do autor.

Reveja a primeira parte desse trabalho e perceba que as mesmas perguntas são capazes de o fazer olhar e perceber a vida do rio por meio de olhares inesperados.

Boa leitura!

 

 
A GoodStorage é uma empresa que acredita que a vida em São Paulo pode ser inteligente, sustentável e próspera. Por isso, oferecemos a solução de locação de box de 1m² a 100m² para armazenar o que tem valor para você ou para a sua empresa pelo tempo que precisar, com flexibilidade e segurança em 10 unidades localizadas em pontos estratégicos da cidade. Solicite o seu orçamento.